Estudo valida escore de risco para câncer de mama em população brasileira e reforça caminhos para a medicina de precisão em países subdesenvolvidos

 

Publicado na revista Diagnostics, o estudo contou com a participação do Dr. Rodrigo Guindalini, pesquisador do IDOR e oncogeneticista da Oncologia D’Or, e investigou se escores de risco poligênico criados a partir de populações europeias conseguem prever adequadamente o risco de câncer de mama em mulheres brasileiras, marcadas por intensa miscigenação genética. 

 

Risco poligênico: quando muitos genes pequenos pesam mais que um só 

O câncer de mama é o mais frequente entre mulheres no mundo e no Brasil, e estima-se que uma em cada oito mulheres desenvolverá um câncer de mama ao longo da vida. Parte do risco está relacionada ao estilo de vida e ao ambiente, enquanto outra parte possui fatores genéticos. 

Embora algumas mutações raras em genes como BRCA1 e BRCA2 aumentem muito as chances da doença, elas são uma parcela relativamente pequena dos casos. A maior parte da predisposição genética ao câncer de mama decorre do chamado risco poligênico. Isso significa que o risco não está concentrado em um único gene, mas no efeito combinado de centenas ou milhares de variantes comuns no genoma. Cada variante isoladamente tem impacto pequeno, mas, somadas, podem alterar de forma relevante a probabilidade de desenvolver a doença. 

O escore de risco poligênico, ou PRS, é uma forma de transformar essa soma de pequenas variações em um número. Esse número indica se a pessoa está abaixo, na média ou acima do risco populacional. O desafio é que a maioria desses modelos foi criada com base em estudos realizados principalmente em populações europeias e, em um país miscigenado como o Brasil, com ancestralidade europeia, africana, indígena e asiática, surge a dúvida: esses escores genéticos funcionam da mesma forma? 

 

Mais de 15 mil brasileiros analisados 

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores avaliaram dados genéticos de 15.490 brasileiros. A amostra incluía 6.362 mulheres com histórico de câncer de mama e o resto eram adultos sem diagnóstico da doença, que serviram de grupo controle. 

O material genético foi analisado por meio do sequenciamento de exoma, técnica que examina as regiões do DNA responsáveis pela produção de proteínas. Como nem todas as variantes de interesse estão diretamente presentes nesse tipo de sequenciamento, os cientistas utilizaram uma estratégia estatística chamada imputação. Na prática, trata-se de uma estimativa baseada em grandes bancos de dados internacionais, como o projeto 1000 Genomas, que permite prever variantes não lidas diretamente no exame. 

Com esses dados, foram testados quatro modelos diferentes de escore de risco poligênico: Broad, PRS313, PRS3820 e UKBB. 

Os pesquisadores também estimaram a ancestralidade genética de cada participante para avaliar se o desempenho dos escores variava entre indivíduos com maior contribuição europeia, não europeia ou do Leste Asiático. 

 

Miscigenação brasileira pode reduzir eficácia de testes genéticos originalmente criados para populações europeias?

Antes de analisar o impacto dos escores poligênicos, os pesquisadores retiraram da análise mulheres que já apresentavam mutações raras de alto impacto, como as já mencionadas nos genes BRCA1 e BRCA2, que isoladamente já elevam muito o risco de câncer. O objetivo era avaliar especificamente o efeito acumulado das variantes comuns. 

Os resultados confirmaram que a miscigenação de fato interfere nos modelos testados, revelando um efeito menos pronunciado na população brasileira do que nos estudos originais europeus. Isso acontece porque as frequências genéticas e os padrões de herança em uma população misturada são diferentes dos europeus, e os autores descartaram os modelos Broad e UKBB como adequados para avaliar o risco populacional no Brasil. 

A boa notícia, contudo, é que os outros dois testes, em especial o PRS3820, ainda funcionam muito bem para identificar o risco de câncer de mama em mulheres brasileiras, independentemente da proporção de sua ancestralidade, seja ela mais europeia, africana ou asiática. 

A validação desse escore em solo brasileiro é particularmente importante, pois comprova que a capacidade do teste de identificar o risco em europeias funciona com eficácia muito similar em brasileiras com diferentes ancestralidades. Isso significa, por exemplo, que estar entre os 10% de maior risco pelo teste PRS3820, sendo brasileira ou europeia, resulta em chances relevantes de desenvolver o câncer de mama, que não devem ser ignoradas na prática clínica. 

Outro ponto positivo é que estudo mostrou que utilizar dados de exoma combinados com imputação pode ser uma alternativa mais acessível do que o sequenciamento completo do genoma para calcular o escore, o que pode facilitar sua aplicação em larga escala. 

 

Um passo para integrar genética rara e risco acumulado 

Os resultados reforçam que tanto mutações raras de grande impacto quanto o risco poligênico contribuem para o panorama do câncer hereditário no Brasil. Utilizar métodos de identificação que integrem essas duas dimensões pode permitir uma estratificação mais refinada do risco. 

Porém, para que esses escores sejam incorporados à prática clínica, ainda serão necessários estudos prospectivos que avaliem como utilizá-los na triagem, por exemplo, para definir início mais precoce de rastreamento ou intervalos diferenciados de mamografia. 

Ainda assim, ao demonstrar que modelos como PRS3820 mantêm desempenho relevante em uma população altamente miscigenada, o estudo representa um avanço concreto para medicina de precisão no Brasil, permitindo que pacientes sejam identificadas e tratadas muito mais cedo, aumentando as chances de desfechos positivos para a doença. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu. 

 

Sobre o IDOR 

Fundado em 2010, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) é uma instituição brasileira sem fins lucrativos dedicada à pesquisa, à educação e à inovação em saúde. Com atuação nacional e internacional, o Instituto desenvolve estudos de excelência em diversas áreas do conhecimento biomédico, formando profissionais e contribuindo para avanços científicos que impactam a saúde da população. Sua principal mantenedora é a Rede D’Or, maior rede integrada de saúde do Brasil. Mais informações: www.idor.org.

05.08.2026 Rodrigo Guindalini