Pesquisadores analisam os gargalos do SUS e defendem o diagnóstico precoce como prioridade para reduzir a mortalidade pela doença no Brasil
O aumento da oferta de mamografias, por si só, não é suficiente para reduzir a mortalidade por câncer de mama no Brasil. Em uma análise publicada no início deste ano, na revista científica The Lancet Regional Health: Americas, pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e da Universidade de Iowa examinaram os desafios do rastreamento da doença no Sistema Único de Saúde (SUS). O trabalho apontou que agilizar a investigação de alterações suspeitas pode ser uma estratégia mais urgente para salvar vidas, especialmente em regiões com recursos limitados.
Câncer de mama: os desafios da nova política de rastreamento
Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde atualizou as orientações nacionais para ampliar o acesso à mamografia a mulheres de 40 a 74 anos. A Organização Mundial da Saúde (OMS), contudo, defende que países com recursos limitados priorizem a estruturação de uma rede capaz de diagnosticar e tratar rapidamente mulheres que já apresentam sintomas antes de implementar programas de rastreamento populacional em larga escala.
O desafio é significativo em um país com 205 milhões de habitantes e profundas desigualdades regionais na distribuição de equipamentos, profissionais especializados e serviços de saúde. Os pesquisadores argumentam que, nesse cenário, uma política uniforme pode produzir resultados diferentes conforme a capacidade de atendimento de cada localidade.
Mortalidade por câncer de mama continua crescendo no Brasil
A dimensão do problema aparece nas estimativas epidemiológicas. Segundo o INCA, o Brasil registra uma projeção de 73.610 novos casos de câncer de mama por ano.
A incidência também varia entre as regiões brasileiras, com taxas mais elevadas no Sul e no Sudeste do que no Norte. Mais preocupante, entretanto, é a tendência de mortalidade: enquanto países de alta renda vêm registrando redução dos óbitos pela doença nas últimas décadas, o Brasil ainda enfrenta uma trajetória de crescimento.
Um dos fatores associados a esse cenário é o diagnóstico tardio. Muitas mulheres chegam aos serviços de saúde quando o tumor já está em estágios avançados, classificados como III ou IV. Nesses casos, o tratamento tende a ser mais complexo, e as chances de controle da doença podem ser menores.
Mamografia reduz mortes, mas depende de uma rede de atendimento
Ensaios clínicos internacionais indicam que o rastreamento periódico por mamografia pode reduzir a mortalidade por câncer de mama entre 20% e 30%, especialmente entre mulheres que realizam os exames regularmente. Isso não significa, porém, que ampliar a quantidade de exames seja suficiente para reproduzir esses resultados em qualquer contexto.
Um programa de rastreamento eficaz depende de uma cadeia de serviços: equipamentos adequados, radiologistas capacitados, identificação das mulheres elegíveis, realização de exames complementares, biópsias para confirmar suspeitas e acesso oportuno ao tratamento.
Os autores defendem que, quando essas etapas não funcionam de maneira integrada, a detecção de uma alteração pela mamografia não garante que a paciente receberá o diagnóstico definitivo e o tratamento em tempo hábil. Além disso, direcionar recursos para ampliar o rastreamento sem corrigir falhas assistenciais pode deixar em segundo plano mulheres que já apresentam sinais da doença.
Como reduzir os atrasos no diagnóstico e no tratamento pelo SUS
O artigo identifica obstáculos ao longo de toda a jornada da paciente, desde a primeira consulta até a confirmação diagnóstica e o início do tratamento. Embora o país tenha instrumentos legais, como a Lei dos 60 Dias, que estabelece prazo para o início do tratamento oncológico após o diagnóstico confirmado, os atrasos continuam sendo um problema relevante.
Para enfrentar essas dificuldades, os pesquisadores defendem estratégias adaptadas à capacidade de cada região. Em locais com maior disponibilidade de recursos, é possível investir em programas de rastreamento personalizados e incorporar tecnologias como a tomossíntese mamária digital, ou mamografia 3D, que produz imagens em camadas da mama, e a ressonância magnética para mulheres com alto risco de desenvolver a doença.
Nas regiões com infraestrutura mais limitada, a prioridade deve ser fortalecer o diagnóstico precoce. Isso inclui campanhas de conscientização, capacitação das equipes de atenção primária, exame clínico das mamas e encaminhamento rápido de pacientes com alterações suspeitas para serviços especializados.
Diagnóstico rápido de lesões palpáveis deve ser prioridade
A principal mensagem da análise é que a política de combate ao câncer de mama precisa considerar não apenas quantos exames são realizados, mas também a capacidade do sistema de transformar suspeitas em diagnósticos e tratamentos efetivos.
Para o Brasil, acelerar o atendimento de mulheres que já apresentam lesões palpáveis nas mamas é uma medida especialmente importante. Garantir investigação diagnóstica ágil e acesso ao tratamento pode evitar que a doença avance enquanto a paciente aguarda atendimento.
A mamografia continua sendo uma ferramenta fundamental, mas seus benefícios dependem de uma rede assistencial capaz de responder aos resultados. Reduzir a mortalidade exige, portanto, combinar estratégias de rastreamento com diagnóstico precoce, encaminhamento eficiente e tratamento oportuno, respeitando as desigualdades regionais do SUS.
Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação:
José Bines — Oncologia D’Or, Clínica São Vicente, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Rio de Janeiro.