Pesquisa busca explicar por que mulheres tratadas para câncer de mama podem evoluir com doenças cardiovasculares no longo prazo

O avanço nos tratamentos oncológicos elevou as taxas de sobrevivência de pacientes com câncer de mama. No entanto, mulheres tratadas com certos quimioterápicos, como a doxorrubicina, e o trastuzumabe, anticorpo direcionado contra receptores na superfície das células do tumor, apresentam um risco elevado de desenvolver doenças cardiovasculares após o término do tratamento. Os mecanismos fisiológicos envolvidos nesse comprometimento cardíaco e vascular ainda são pouco compreendidos 

Para investigar esse cenário, pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IC-HCFMUSP), a Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), Universidade São Francisco, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), University of Minnesota (Estados Unidos) e University of Colorado Boulder (Estados Unidos), buscaram entender se o sistema nervoso e os vasos sanguíneos dessas pacientes sofrem alterações permanentes, mesmo quando bombeamento sanguíneo do coração parece normal nos exames de rotina. Os resultados dessa pesquisa foram publicados nesse mês de março no Journal of the American Heart Association. 

O estudo avaliou 23 pacientes com diagnóstico de câncer de mama, em média oito anos após o fim do tratamento, e as comparou com um grupo de controle saudável. Os cientistas utilizaram técnicas como a microneurografia, que mede diretamente a atividade dos nervos, e testes de esforço para medir o consumo de oxigênio (VO2 pico). Além disso, analisaram o sangue em busca de vesículas extracelulares endoteliais, que são pequenas partículas liberadas por células que revestem os vasos sanguíneos quando estas sofrem danos ou morrem. 

Os resultados revelaram que as pacientes tratadas com as medicações antineoplásicas apresentam uma hiperatividade do sistema nervoso que mantém o corpo em estado de alerta constante, com uma atividade nervosa 31% superior à do grupo saudável. Também foi identificado que essa sobrecarga nervosa estava diretamente ligada a uma redução em 26% na capacidade de realizar exercícios físicos. Além disso, os vasos sanguíneos dessas mulheres tinham menos flexibilidade e dificuldade para dilatar, o que dificulta a circulação do sangue durante o esforço. 

Mesmo com o coração apresentando uma força de contração normal (fração de ejeção preservada), o estudo detectou alterações moleculares e celulares como o aumento do estresse oxidativo e a alteração em 28 metabólitos no plasma sanguíneo. Isso significa que, embora o coração pareça saudável na avaliação de sua capacidade de bombeamento, o sistema neurovascular demonstra sinais de desgaste severo. 

Esses dados ajudam a explicar por que muitas mulheres que receberam tratamento para o câncer de mama sentem cansaço excessivo e intolerância ao exercício, sintomas que não devem ser atribuídos apenas ao sedentarismo. A pesquisa mostra que certos tratamentos do câncer podem deixar uma “assinatura” de estresse no sistema nervoso e nos vasos sanguíneos, o que aumenta o risco de infarto e outras complicações no futuro. Compreender que a intolerância ao exercício está ligada a uma falha na comunicação entre nervos e vasos permite que médicos monitorem essas pacientes de forma mais específica, indo além dos exames cardíacos tradicionais. 

Os resultados reforçam a importância do monitoramento cardiovascular contínuo em pacientes com câncer de mama, especialmente naquelas expostas a terapias potencialmente cardiotóxicas. Também apontam para a necessidade de estratégias que possam atenuar alterações autonômicas e vasculares persistentes, como programas de reabilitação e intervenções direcionadas ao sistema cardiovascular. 

Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Claudio Ferrari