A boa notícia é que o quadro clínico pode mudar com a interrupção do hábito

Em sua folha informativa sobre a Covid-19, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) informa: fumantes e usuários de tabaco são potencialmente mais vulneráveis à doença. Uma das razões para isso seria o fato do hábito prejudicar o funcionamento pulmonar, aumentando o risco de desenvolver um quadro grave da Covid-19; fora o fato de que o fumo consiste em levar muitas vezes as mãos à boca e algumas pessoas compartilham cigarros e bongs, o que seriam potencializadores da contaminação.

Para além do que já era suposto pela OPAS, a  Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) é mais precisa em sua prescrição, afirmando que tabagistas têm 14 vezes mais chances de morrer por complicações da Covid-19. Segundo a entidade, apesar do número nacional de fumantes ter caído 38% nas últimas décadas, o Brasil ainda é o oitavo país com mais fumantes do mundo, com quase 10% da população se enquadrando neste vício, o que é um fator muito preocupante por suas consequentes comorbidades cardíacas, hepáticas, cerebrais, pulmonares, entre outras.

Em uma revisão bibliográfica publicada no periódico científico Environmental Science and Technology, os riscos do tabagismo durante a pandemia não são apenas nocivos àqueles que o praticam. Devido ao isolamento social, muitos fumantes passaram a fumar mais dentro casa, o que aumenta o potencial de transmissão via aerossol (através do ar) e a partir do fumo passivo de outros moradores do lar. Além dos danos severos que o fumo passivo contínuo pode infligir às pessoas, esse perigo não apenas vulnerabiliza a população de risco, como os idosos, mas também pode contaminar crianças e transformá-las em vetores de transmissão.

Segundo a revisão, o coronavírus pode se ligar a partículas e gotículas maiores de saliva, que são expelidas em exalações, tosses e espirros. Portanto, a fumaça gerada a partir de cigarros – e isto inclui os eletrônicos – pode ser fonte de contaminação a outras pessoas, considerando ainda que as cargas virais em aerossóis podem sobreviver por horas e pousar em superfícies nas quais o vírus permanece viável por dias.

No Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a pesquisadora e química de produtos naturais, Dra. Silvia Oigman, já realizava diversos estudos para o desenvolvimento de terapias redutoras do tabagismo. Ela afirma que o cenário é preocupante, ” Essa já era uma das maiores ameaças à saúde pública, sendo responsável por mais de 8 milhões de mortes no mundo todos os anos. Nacionalmente, o tabagismo causa um prejuízo para o SUS que é avaliado em R$ 44 bilhões. Agora, com a pandemia, esse problema parece que irá acelerar velozmente o colapso do sistema de saúde pública”. A pesquisadora informa que, com a pandemia houve, mais lucro no mercado tabagista: em abril, a arrecadação de impostos federais sobre o fumo cresceu 19% em comparação com o mesmo mês de 2019.

Apesar do vício intensificar as chances de mortalidade pela Covid-19 e oferecer risco de contaminação a não-fumantes expostos à aerossóis e fumaça, a pesquisadora dá a boa notícia de que o quadro é reversível para aqueles que estão tentando parar de fumar. “As trocas gasosas, função pulmonar e circulação sanguínea, processos diretamente afetados com a infecção pela Covid-19, melhoram rapidamente após a cessação do tabagismo, reduzindo consigo os riscos potencializados da doença”, explica. Portanto, incentivar os fumantes a reduzir ou cessar o fumo durante a pandemia pode ajudar no controle de possíveis casos graves de Covid-19, mas representaria uma conquista ainda maior no longo prazo, por reduzir  os quadros de comorbidades e evitar  a vulnerabilização da população frente a futuras crises sanitárias.

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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